PENSE NISSO · Episódio 1779
O POÇO
19 de Maio de 2026 · 5 min
Sobre o episódio
O Poço
Narra uma lenda chinesa que, no fundo de um poço pequeno, mas muito fundo, vivia um sapo. O que ele sabia do mundo era o poço e o pedaço de céu que conseguia ver pela abertura, bem no alto.
Certo dia, um outro sapo se abeirou da boca do poço.
— Por que não desce e vem brincar comigo? É divertido aqui — convidou o sapo lá embaixo.
— O que tem aí? — perguntou o de cima.
— Tudo. Água, correntes subterrâneas, estrelas, a luz e até objetos voadores que vêm do céu.
O sapo da terra suspirou.
— Amigo, você não sabe nada. Você não tem ideia do que é o mundo.
O sapo do poço não gostou daquela observação.
— Quer dizer que existe um mundo maior do que o meu? Aqui vemos, sentimos e temos tudo que existe no mundo.
— Aí é que você se engana — falou o outro. — Você só está vendo o mundo a partir da abertura do poço. O mundo aqui fora é enorme.
O sapo do poço ficou muito chateado e foi perguntar a seu pai se aquilo tudo era verdade.
— Haveria um mundo maior lá em cima?
O pai confirmou. Sim, havia um outro mundo, com muito mais estrelas do que se podia ver dali de baixo.
— Por que nunca me disse? — perguntou o sapinho, desapontado.
— Para quê? O seu destino é aqui embaixo, neste poço. Não há como sair.
— Eu posso! Eu consigo sair! — falou o sapinho.
E pulou, e saltou, e se esforçou. O poço era muito fundo, a terra longe demais, e ele foi se cansando.
— Não adianta, filho — tornou o pai a dizer. — Eu tentei a vida toda, seus avós fizeram o mesmo. Esqueça o mundo lá em cima, contente-se com o que tem, ou vai viver sempre infeliz.
— Mas eu quero sair! Eu quero ver o mundo lá fora! — chorava o filhote.
E passou o resto da vida tentando escapar do poço escuro e frio. O grande mundo lá em cima era o seu sonho.
Um pobre camponês, de apenas oito anos de idade, não se cansava de ouvir essa lenda dos lábios de seu pai. Vivendo a época da revolução cultural na China de Mao Zedong, o menino passava fome, frio e toda sorte de privações.
— Pai! Estamos em um poço? — perguntava.
— Depende do ponto de vista — respondia o pai.
Mais de uma vez, o garoto se sentia como o sapo no poço, sem saída. Mas ele enviava mensagens aos espíritos. Pedia vida longa e felicidade para sua mãe. Pedia pela saúde de seu pai. Mas, mais que tudo, ele pedia para sair do poço escuro e profundo.
Ele sonhava com coisas lindas que não possuía. Pedia comida para sua família. Pedia que o tirassem do poço para que ele pudesse ajudar seus pais e irmãos. Ele pedia e sonhava. E deixava sua imaginação o levar para bem longe.
Um dia, a possibilidade mais remota mudou, de modo total, o curso da sua vida. Ele foi escolhido entre centenas de camponeses e foi fazer parte de algumas das maiores companhias de balé do mundo.
Um dia, ele se tornaria amigo do presidente e da primeira-dama, de astros do cinema e das pessoas mais influentes dos Estados Unidos. Seria uma estrela. O último bailarino de Mao Zedong.
Li Cunxin saiu do poço.
Nunca deixe de sonhar. Nunca abandone seus ideais. Mantenha aquecido seu coração e viva as suas esperanças. O amanhã é sempre um dia a ser conquistado.
Pense nisso. Mas pense agora.